O livro fácil Anotações de Alison
- 9 de set. de 2015
- 5 min de leitura

Às vezes brinco que mereço um livro fácil, para compensar todos aqueles suados, ou melhor, todos que traduzi até agora. Um livro tão fácil que dê para matar a cota diária em poucas horas e passar o resto do dia na praia. Mas já cheguei à conclusão de que isso é apenas uma miragem na faixa de areia quente, um efeito óptico que persiste durante a leitura de certos livros e só acaba quando ponho a mão na massa. O fato de um livro ser fácil de ler não garante que vai ser fácil de traduzir.
Disseram-me que Mãos de cavalo, do Daniel Galera, seria tranquilo. Quando li, até que concordei. Definitivamente não ia ser dos mais difíceis. Mas depois de passar dias pesquisando as partes mais íntimas da bicicleta Caloi Cross aro 20 com freio de pedal e avançar meras 11 páginas na tradução, reconheci que talvez não fosse tão tranquilo assim (e olha que não sou estranha a esse mundo – tenho no currículo dois ossos quebrados numa pista de BMX aos 13 anos). Mas o Daniel é muito preciso nas descrições, e isso exige muita precisão na tradução. Uma cena horripilante em Dias perfeitos, do Raphael Montes, me obrigou a mergulhar mais do que gostaria no tórax humano, o que foi ligeiramente mais fácil de deslindar do que a anatomia da bicicleta, embora não muito. Esses dias, para traduzir um conto de cinco páginas, passei horas no Mercado Livre e no e-Bay tentando visualizar cadeiras com costas de tapeçaria para ver se eram iguais às que minha avó tinha em casa e descobrir como chamam em inglês. Ela restaurava móveis antigos, mas como já está no céu dos antiquários, não podia perguntar para ela. Um trecho do novo livro do Marcelo Rubens Paiva, Ainda estou aqui, me levou para dentro do Google Maps e depois do Google Earth, onde passei uma tarde girando aquela fotografia panorâmica sem fim para escrutinar cada esquina descrita. Dei uma volta de 360 graus num cruzamento com nome de largo (que de largo só tem largura) tentando decidir como lidar com a identidade dupla do lugar. Ainda me detive um tempo num predinho de três andares, porque só vendo as treliças nas janelas é que ia saber traduzi-las. Vasculhei sites de flora e fauna para achar uma trepadeira jiboia, ou hera-do-diabo, pegar o nome científico, e verificar a tradução em inglês, para depois comparar com a descrição e imagens de devil’s ivy para ver se são a mesma coisa. Mas isso não foi nada comparado com os umbu, pupunha, buriti, andiroba, copaíba, bacuri, muruci, taperebá, ingá, pequi, cambará, puxuri e araçá que tinha no infantil Curupira Pirapora, da Tatiana Salem Levy, sem nem falar dos bichos. Mas essas coisas todas têm nomes próprios que podem ser encontrados em dicionários, enciclopédias e na internet… só é preciso um pouco de paciência e boa vontade.
Mas o que fazer quando o autor cita, em português, trechos de um livro que foi publicado originalmente em inglês ou que já tem uma tradução consagrada no idioma? É só pegar aquele livro em inglês na estante da sala e copiar o trecho, certo? Quando não tenho, o que é mais provável, é só comprar online e aguardar 57 dias para que seja entregue, para depois copiar. Ou fazer um download ilegal de um site escuso e me expor a toda sorte de virose virtual, para depois copiar o trecho – ou não. O que eu gosto mesmo é entrar na gigante amazon para pegar o trecho naquela ferramenta de visualização que nunca deixa você ver tudo. A sádica me dá três palavras, meia frase que seja, e o resto da página fica oculto. Vou mudando as palavras de busca para ver se consigo puxar o restante, brincando com as que já consegui confirmar, e as que acho que podem vir em seguida – e assim ela vai mudando o trecho à mostra, revelando mais três palavras, meia frase que seja, até que eu consigo pegar tudo que quero. Assim é possível surrupiar uma citação de meia página em uma ou duas horinhas.
Até aqui só falei de coisas que são encontráveis, teoricamente, mas que tornam o livro fácil menos fácil. Agora, coloque na equação todas as coisas que não são encontráveis (e o tradutor vai ter que se virar nos 30, com muita criatividade) e talvez você entenda por que não acredito mais no livro fácil. A verdade é que a maioria dos textos que traduzo aponta as ausências e lacunas na minha língua, onde não existe determinada palavra ou expressão porque, pra começo de conversa, não temos a coisa a que se refere. Ou topo com a dificuldade de reproduzir, com a mesma elasticidade, uma sintaxe que reflete todo um jeito brasileiro de formular as ideias. Tanto é que levei um susto quando um romance me apresentou o fenômeno oposto, como uma La Niña numa década de El Niños. Traduzindo Dias perfeitos, do Raphael Montes, finalmente eu pude me esbaldar numa das partes mais ricas da língua inglesa: a dos verbos.
Não sei se o inglês tem mais verbos que outras línguas, como li alguma vez, mas sei que usamos muito os que temos. E além dos regulares, ainda temos os phrasal verbs: construções verbais em que verbos comuns e partículas (artigos e preposições) são combinados para criar uma infinidade de frases verbais. Muitas vezes pertencem a um registro mais baixo do que os verbos derivados do latim – e são um verdadeiro horror para quem está tentando aprender o idioma. Mas suas possibilidades de expressão são ilimitadas.
Infelizmente, nem todos os textos permitem que eu lance mão dessa riqueza toda, e me pergunto se parte da razão não está no original. Sempre que vejo uma frase que funcionaria melhor em inglês numa construção verbal, e isso não vai interferir com nenhum outro aspecto da tradução, faço a conversão. Porém, se é verdade – como acredito – que o inglês se estrutura mais em torno dos verbos, enquanto o português pesa mais a favor das construções substantivadas, então faz sentido que nem sempre há justificativa para enveredarmos pelas possibilidades verbais do inglês, por mais habilidoso que seja o tradutor, porque, afinal, temos que ser fiéis a um original e isso traz lá suas limitações.
Mas no caso do livro do Raphael, trata-se de um thriller policial, um gênero que é, por excelência, cheio de ação. E o protagonista vive observando as ações dos outros personagens o tempo todo, tentando adivinhar o que estão pensando, o que vão fazer em seguida. Foi um prazer traduzir algo que, embora não tenha sido fácil por outros motivos, em vez de me lembrar das ausências, me lembrou de presenças – e me deu a oportunidade de usá-las.
Alison Entrekin é tradutora literária australiana radicada no Brasil. Verteu para o inglês Cidade de Deus, do Paulo Lins, O filho eterno, do Cristovão Tezza, Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector e Budapeste, do Chico Buarque, entre outros.

























Comentários